Capa de edição estrangeira de disco de João Gilberto
Foto: Reprodução/Internet
João Gilberto em show (Foto: Reprodução)
Publicado originalmente no site G1 Globo, em 06/07/2019
João Gilberto, pai da bossa nova, morre aos 88 anos
Um dos nomes mais importantes da música brasileira, cantor
morreu em sua casa no Rio de Janeiro.
Por G1
Morre, aos 88 anos, o cantor e compositor João Gilberto,
criador da bossa nova
João Gilberto morreu neste sábado (6) aos 88 anos. O músico,
um dos criadores da bossa nova, morreu em casa, no Rio de Janeiro. Ele enfrentava
problemas de saúde há alguns anos. A informação foi confirmada ao G1 pelo seu
filho, João Marcelo Gilberto, que mora nos Estados Unidos.
Além de Marcelo, ele deixa outros dois filhos, Bebel e
Luisa.
Recluso, João foi interditado judicialmente pela filha,
Bebel Gilberto, no fim de 2017. A interdição motivou uma disputa familiar entre
Bebel e João Marcelo, que são meio-irmãos.
Em nota divulgada na época, a advogada de Bebel disse que a
intervenção foi motivada por problemas de saúde e complicações financeiras do
cantor.
Pai da bossa nova
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira concluiu em 1961 a
trilogia de álbuns fundamentais que apresentaram a bossa nova ao mundo:
"Chega de saudade" (1959), "O amor, o sorriso e a flor"
(1960) e "João Gilberto" de 1961.
O álbum que marcou o início do gênero em 1959, "Chega
de saudade", traz a música de mesmo nome composta por Tom Jobim
(1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980).
A canção havia sido apresentada em um LP em abril de 1958
por Elizeth Cardoso (1920-1990), mas a versão mais conhecida, com a voz de
João, foi lançada em agosto do mesmo ano.
João Gilberto nasceu em Juazeiro, na Bahia, em 10 de junho
de 1931. O governo do estado declarou três dias de luto pela morte.
Depois de alguns anos morando em Aracaju (SE), onde passou a
tocar na banda escolar, voltou à sua cidade-natal e, aos 14 anos, ganhou o
primeiro violão do pai.
Depois da consagração, lançou criações próprias e seguiu com
shows e discos que se tornaram obras de arte, como é o caso de "Amoroso”,
álbum gravado nos Estados Unidos entre 1976 e 1977 sob o selo Warner Music.
O álbum foi relançado no Brasil em formato longo durante os
festejos dos 60 anos da Bossa Nova. O álbum celebra o encontro harmonioso do
artista brasileiro com o maestro alemão Claus Ogerman (1930 – 2016).
A produção de João foi objeto de uma disputa judicial em
2018. A defesa do cantor pedia uma revisão no valor de uma indenização da
gravadora EMI Records, hoje controlada pela Universal Music. Em 2015, o
Superior Tribunal de Justiça (STJ) proibiu a empresa de vender os discos do
artista sem seu consentimento. A Universal não comenta o caso.
Começo de carreira
Por volta dos 16 anos de idade, abandonou os estudos para se
dedicar à música após se mudar para Salvador (BA). Anos depois vai para o Rio
de Janeiro, ao ser convidado para fazer parte do grupo Garotos da Lua.
Ao deixar o grupo, chegou a gravar alguns singles, ainda
antes de criar a batida característica da bossa nova, mas não conseguiu
sucesso.
Depois de algum tempo dedicado ao estudo de harmonia na
música, percebe que ao cantar mais baixo e manter a batida poderia adiantar ou
atrasar o canto. Esse novo tempo criado foi o responsável por encantar o
compositor Roberto Menescal, que o apresentou a pessoas como o produtor musical
Ronaldo Bôscoli.
Tom Jobim viu neste novo estilo uma forma de modernizar o
samba ao simplificar seu ritmo, e resolveu apresentar o João uma música que
tinha escrito com Vinicius de Moraes mas que estava encostada, "Chega de
Saudade".
Bossa no exterior
João foi um dos representante da bossa nova fora do Brasil.
Em 1962, foi um dos destaques de show patrocinado pelo governo brasileiro no
Carnegie Hall, uma das principais arenas de Nova York, em uma tentativa de
popularizar o gênero nos Estados Unidos.
Pouco depois, gravou o disco Getz/Gilberto com o saxofonista
de jazz americano Stan Getz, que se tornou um dos grandes clássicos de sua
carreira. O álbum se tornou um dos mais vendidos de 1964, com 2 milhões de
cópias, e ganhou quatro prêmios Grammy, o maior da música mundial.
Com o sucesso, saiu em turnê pela Europa e fez apresentações
pelos Estados Unidos e pelo México. Tanto que, mesmo com algumas passagens pelo
país, voltou definitivamente ao Brasil apenas no final dos anos 1970.
Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com
Publicado originalmente no site G1 Rio, 30/04/2019
Beth Carvalho, a Madrinha do Samba, morre no Rio aos 72 anos
Artista estava internada desde 8 de janeiro; causa foi
infecção generalizada, diz empresário. Com mais de 50 anos de carreira, ela foi
um dos maiores nomes da história do gênero.
Por G1 Rio
A cantora e compositora Beth Carvalho, conhecida como a
Madrinha do Samba e um dos maiores nomes da história do gênero, morreu no Rio,
nesta terça-feira (30), aos 72 anos. Ela estava internada no Hospital
Pró-Cardíaco, em Botafogo, Zona Sul da cidade, desde o início de 2019. A causa
da morte foi infecção generalizada, informou o hospital, em comunicado...
Cantora estava internada havia mais de um mês com uma
infecção grave em um hospital de São Paulo. Ela tinha 89 anos.
Por G1
A cantora Angela Maria, uma das rainhas do rádio, morreu aos
89 anos no fim da noite deste sábado (29), no Hospital Sancta Maggiore, em São
Paulo. Ela tinha sido internada havia mais de um mês com uma infecção grave.
O marido dela, o empresário Daniel D’Angelo, divulgou um
vídeo emocionado no Facebook falando sobre a morte da cantora, que fez um
estrondoso sucesso entre as décadas de 1950 e 1960.
"É com meu coração partido que eu comunico a vocês que
a minha Abelim Maria da Cunha, e a nossa Angela Maria, partiu, foi morar com
Jesus", disse emocionado, ao lado de Alexandre, um dos filhos adotivos do
casal e de um outro rapaz. D'Angelo conta que Angela Maria sofreu muito durante
os 34 dias de internação.
A cantora será velada e sepultada neste domingo (30) no
Cemitério Congonhas, na zona sul da capital paulista.
Nome artístico
Abelim Maria da Cunha, verdadeiro nome de Angela Maria,
nasceu em Macaé, Rio de Janeiro. Filha de pastor protestante, passou a infância
nas cidades fluminenses de Niterói, São Gonçalo e São João de Meriti. Desde
menina cantava em coro de igrejas.
Foi operária tecelã, mas sonhava com o rádio, embora a
família fosse contra a carreira artística.
Por volta de 1947, começou a frequentar programas de
calouros. Apresentou-se no “Pescando Estrelas”, de Arnaldo Amaral, na Rádio
Clube do Brasil (hoje Mundial); na “Hora do Pato”, de Jorge Curi, na Rádio
Nacional; no programa de calouros de Ari Barroso, na Rádio Tup; e do “Trem da
Alegria”, dirigido pelo "Trio de Osso" - os magérrimos Lamartine
Babo, Iara Sales e Heber de Bôscoli -, na Rádio Nacional.
Naquela época, usava o nome de Angela Maria, para não ser
descoberta pela família. Ainda era inspetora de lâmpadas numa fábrica da
General Eletric e, decidindo tentar a carreira de cantora, abandonou a família
e foi morar com uma irmã no subúrbio de Bonsucesso.
Angela Maria Foto: Jair de Assis/Divulgação Angela Maria
Era do rádio
Em 1948 conseguiu lançar-se como crooner no Dancing Avenida,
onde impressionou os compositores Erasmo Silva e Jaime Moreira Filho, que a
apresentaram a Gilberto Martins, diretor da Rádio Mayrink Veiga. Feito o teste,
começou carreira na emissora.
Firmando-se a partir de 1950 como intérprete, em 1951
estreou na RCA Victor em disco com “Sou feliz” e “Quando alguém vai embora”. No
ano seguinte, sua gravação do samba “Não tenho você” bateu recordes de venda,
marcando o primeiro grande sucesso de sua carreira.
Princesa e Rainha do Rádio
Durante a década de 1950, atuou intensamente nas rádios
Nacional e Mayrink Veiga, como a estrela de “A Princesa Canta”, nome derivado
de seu título de “Princesa do Rádio”, um dos muitos que recebeu em sua
carreira.
Em 1954, em concurso popular, tornou-se a “Rainha do Rádio”,
e no mesmo ano estreou no cinema, participando do filme “Rua sem sol”.
A cantora Angela Maria Foto: Reprodução/Facebook
'Sapoti'
Apelidada “Sapoti” pelo presidente Getúlio Vargas, tornou-se
a cantora mais popular do Brasil durante a década de 1950, alcançando os
maiores êxitos com os sambas-canções “Fósforo queimado”, “Vida de bailarina”,
“Orgulho”, “Ave Maria no morro” e “Lábios de mel”. Um de seus grandes sucessos
na segunda metade da década de 1960 foi a canção “Gente humilde”.
Em 1982 foi lançado o LP Odeon com Angela Maria e Cauby
Peixoto, primeiro encontro em disco dos dois intérpretes. Em 1992 apresentou-se
com Cauby no show Canta Brasil, e lançou o disco "Angela e Cauby ao
vivo".
Em 1996, foi contratada pela gravadora Sony Music e lançou o
CD “Amigos”, com a participação de vários artistas como Roberto Carlos, Maria
Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, entre outros. O trabalho foi um
sucesso, celebrado num espetáculo no Metropolitan (Claro Hall), no Rio de
Janeiro, e um especial na Rede Globo. O disco vendeu mais de 500 mil cópias.
A cantora Ângela Maria, amiga de Cauby Peixoto, se emocionou
no tributo ao cantor na Virada Cultural Foto: Flavio Moraes/G1
Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/pop-arte
Carmen Miranda (1909-1955) foi uma cantora, atriz e
dançarina luso-brasileira.
Ficou conhecida como a Pequena Notável.
Maria do Carmo Miranda da Cunha (1909-1955), conhecida como
Carmen Miranda, nasceu em Marco de Canaveses, no Distrito de Porto, Portugal,
no dia 9 de fevereiro de 1909. Filha do barbeiro José Maria Pinto Cunha e de
Maria Emília Miranda, em 1910, com apenas um ano de idade, junto com sua mãe e
sua irmã Olinda, veio para o Brasil, onde seu pai já morava.
Carmen foi criada no Rio de Janeiro, o bairro da Lapa.
Estudou em colégio de freiras e aos 15 anos largou os estudos e começou a
trabalhar na La Femme Chic, uma confecção de chapéus, localizada no centro do
Rio de Janeiro, onde estudou moda e aprendeu a costurar, pegando o gosto pelos
turbantes, que viraram sua marca registrada.
Sonhando em ser atriz e cantora, nas horas vagas, cantava e
dançava para animar pequenas festas. Em 1929, foi apresentada ao compositor
Josué de Barros que logo a levou para se apresentar em teatros e clubes. Gravou
seu primeiro disco com as músicas “Triste Jandaia” e “Iaiá, Ioiô”. Seu grande
sucesso veio com a marcha-canção "Pra Você Gostar de Mim" (1930), que
ficou conhecida por "Tai", escrita especialmente para ela, que foi
recorde de vendas.
No dia 30 de outubro do mesmo ano, Carmen Miranda já estava
fazendo sua primeira turnê internacional em Buenos Aires, na Argentina. Em
1933, foi a primeira mulher a assinar contrato com uma rádio. Entre 1933 e
1938, retornou à Argentina mais oito vezes. Carmen lançou outros discos e se
transformou na principal estrela do Cassino da Urca no Rio de Janeiro. As
apresentações no cassino funcionavam como passaporte para o ingresso no mundo
do cinema.
Em 1936, estreou no cinema na comédia musical “Alô, Alô
Carnaval”, quando cantou acompanhada da irmã Aurora Miranda. Em 1939, Carmen
brilhou na comédia-musical “Banana da Terra”, quando apareceu caracterizada de
vendedora de frutas da Bahia, personagem que ela incorporou até o fim de sua
vida. No musical, cantou a música “O Que é Que a Baiana Tem”, de Dorival
Caymmi, que virou clássicos na voz da cantora.
Ainda em 1939, em uma temporada no Cassino da Urca, Carmen
foi contratada pelo magnata do show business, Lee Shubert, para ser uma de suas
atrações no show “The Streets os Paris”, que estrearia na Broadway. O sucesso
das apresentações projetou Carmen nos Estados Unidos. No ano seguinte, a
cantora apresentou-se na Casa Branca em uma festa para o presidente Roosevelt,
pelo seu sétimo ano na presidência dos Estados Unidos.
A pequena Notável, com seus 1,52 m de altura, se tornou uma espécie de símbolo da América
Latina, com seus turbantes, brincos de argolas, babados, saltos plataformas e
balangandãs. Em 1940 estreia nos Estados Unidos com o filme “Serenata
Tropical”. No dia 24 de março de 1941, foi a primeira sul-americana a receber
uma estrela na Calçada da fama em Hollywood. Carmen Miranda fez um total de 14
filmes nos Estados Unidos e seis filmes no Brasil.
Carmen Miranda casou-se, em 1947, com o americano David
Sebastian, que passou de empregado a empresário. Sendo alcoólatra, ele levou
Carmen a beber também e não conseguiu administrar seus contratos. O casamento
entrou em crise e Carmen caiu em depressão, se tornando dependente de remédios.
Depois de 15 anos nos Estados Unidos, consagrada
internacionalmente, viaja de volta ao Brasil, em 1954, para rever a família.
Sofrendo, ficou internada durante 4 meses para desintoxicação. Depois, já
recuperada, volta para Hollywood e apresenta-se no programa do comediante Jimmy
Durante. Enquanto cantava e dançava, desmaiou e foi amparada. Recuperada,
terminou sua apresentação. De volta para casa em Los Angeles, foi para seu
quarto e na manhã do dia seguinte foi encontrada morta vitimada por um ataque
cardíaco.
Carmen Miranda faleceu em Beverly Hills, Califórnia, Estados
Unidos, no dia 5 de agosto de 1955.
Bidu Sayão - 11/5/1902, Rio de Janeiro (RJ)BR. - 13/3/1999,
Rockport, EUA
"Ela tem uma voz admirável, de encanto
impregnante", disse o escritor e musicólogo Mário de Andrade, encantado
com a voz e a presença de Bidu Sayão. "Que frágil tenuidade vibra tão
frágil e intensa no seu cantar. Prova de que uma alma de ave pode escalar na
paixão."
Balduína de Oliveira Sayão perdeu o pai aos cinco anos. Da
mãe (que foi sua grande incentivadora), herdou o apelido.
Dedicou-se ao canto lírico desde cedo e estreou aos 18 anos,
no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na ópera "Lucia de Lammermoor",
de Gaetano Donizetti. Apesar da acolhida positiva de público e crítica,
resolveu postergar o início da carreira para aperfeiçoar seus estudos.
Estudou canto em Bucareste (Romênia), com a soprano Elena
Theodorini, e em Nice (França), com o grande tenor polonês Jean de Reszke.
Bidu fez sua estréia oficial em 1926, em Roma, interpretando
Rosina, da ópera "O Barbeiro de Sevilha", de Gioacchino Rossini. O
sucesso a levou a cantar nas principais casas de ópera da Europa, aí incluído o
teatro La Scala (Milão), onde em 1930 tornou a desempenhar o papel de Rosina.
Em 1935, estreou nos EUA, cantando no Carnegie Hall (Nova
Iorque): ali, sob a regência de Arturo Toscanini, atuou na ópera "La
Demoiselle Élue", de Claude Debussy. Em 1937, cantou pela primeira vez no
Metropolitan Opera House (também em Nova York), interpretando a personagem que
dá nome à ópera "Manon", de Jules Massenet.
Bidu radicou-se nos EUA e fez brilhante carreira no
Metropolitan, onde atuou durante 16 temporadas operísticas, cantando em 155
apresentações. Apresentou-se também em turnês por outras grandes cidades dos
EUA, como Chicago e San Francisco. Em 1945, gravou em Nova York a versão mais
conhecida da "Bachiana Brasileira no 5", de Heitor Villa-Lobos.
Aclamada por causa da voz cristalina e da intensidade
cênica, resolveu encerrar a carreira artística em 1957. No ano seguinte, cantou
pela última vez num palco, na mesma "Demoiselle Élue" com que
estreara nos EUA.
Em 1959, aceitou o convite de Villa-Lobos para gravar a
composição "Floresta Amazônica". De resto, embora tenha passado quase
toda a vida fora do Brasil, nunca se desligou da cultura nacional.
Em 1995, aos 92 anos, visitou o Rio de Janeiro para assistir
a uma grande homenagem: no Carnaval carioca, sua vida e sua carreira foram enredo
da escola de samba Beija-Flor.
Bidu Sayão morreu aos 96 anos, lutando contra a pneumonia
numa clínica em Rockport, no estado norte-americano do Maine, onde morava.
Texto e imagem reproduzidos do site: educacao.uol.com.br
Entrevista publicada originalmente na revista Veja, 12/12/1973 - Edição 275.
Bidu Sayão - entrevista
"A ópera está no fim"
De volta ao Brasil, a grande soprano diz que o canto lírico
não lhe agrada mais
Por Maria Helena Dutra
Por pouco, um incidente na chegada acabava estragando a
festa do retorno. Depois de vinte anos ausente do Brasil, Bidu Sayão voltou, em
novembro, para presidir o júri do Concurso Internacional de Canto promovido
pelo Museu Villa-Lobos. Na bagagem, a cantora trouxe uma série de gravações não
comerciais, editadas por um amigo seu a partir de velhas matrizes de programas
de rádio. E a alfândega brasileira a recebeu com a notícia de que os discos só
entravam por 15.000 cruzeiros. No final tudo acabou bem, graças ao esforço de
funcionários do Theatro Municipal carioca, da Riotur, e à interferência do
próprio ministro Delfim Netto, da Fazenda. Com os discos - suas lembranças -,
Bidu reencontrou sua terra, da qual saíra em 1937 para uma carreira brilhante
de estrela internacional.
Nascia na praça Tiradentes, no Rio, há 67 anos, Balduína de
Oliveira Sayão decidiu, aos 13 anos, trocar os bailes e namorados por uma
definida ambição: "Queria ser alguém na vida, e resolvi cantar, já que não
me permitiram ser atriz". Em 1927, saiu pela primeira vez do Brasil para
se apresentar em teatros italianos. E, quando se mudou para os Estados Unidos,
em 1937, alcançou logo o Metropolitan Opera House, de Nova York, do qual foi
contratada durante dezesseis anos. Apesar de uma voz de pouco volume e
extensão, suas performances foram sempre excelentes. "Por causa de sua
excepcional clareza e pureza", escreveu em 1970 o crítico George Moshvon,
do "High Fidelity Magazin", "atingia todos os cantos da sala.
Ninguém jamais teve problemas para ouvir Sayão." Hoje, a ex-"prima
donna" é uma mulher só, que enfrenta a velhice e a solidão, com tristeza e
insegurança. Mas sem pose de heroína - e uma palpável dose de dignidade.
Maria Helena Dutra - Sua carreira foi toda feita no
exterior. Dez anos na Itália e 22 nos Estados Unidos. Aos brasileiros, restaram
apenas poucas récitas e alguns discos importados. Isso não lhe parece injusto
com seu país?
Bidu - Os brasileiros mais jovens realmente podem reclamar.
Os mais velhos, não. Cantei muito por aqui até me despedir fazendo a
"Manon" de Massenet, em 1937. E só não voltei ao Brasil porque,
depois daquela data, tive uma série de concertos e recitais que não me deram
mais um momento livre. Em 1935 e 1936, em todo caso, participei de duas enormes
turnês pelo país, indo de Manaus a Santana do Livramento. E não fiquei só nas
grandes cidades ou no litoral. Fui a uma infinidade de cidades do interior.
Cantei em teatros, em cinemas. E em algumas cidades menores cantei ao ar livre,
em cima de um tablado, junto ao piano. Entrava quem podia e quem não podia
pagar. Era um negócio muito mais patriótico do que lucrativo. Nas cidades onde
não havia hotel, eu ficava em pensão ou em casas de pessoas que gostavam de
música. As duas viagens, porém, foram grandes sucessos. Fico ofendida quando
dizem que não sou patriota. Sempre represente minha terra com muita dignidade.
Todas as minhas colegas do Metropolitan Opera House eram americanas
naturalizadas. Menos eu, que vivo há 35 anos nos Estados Unidos.
Maria Helena Dutra -
Os críticos costumam dizer que, embora segura e elaborada, sua voz é
pequena. E que você teria feito sucesso porque conseguira compensar tudo com
sua ótima presença como atriz. Isso é verdade? E o contrário: uma voz
excepcional dispensa um bom ator?
Bidu - Nunca. Qualquer arte, para ser bem realizada, precisa
ser estudada com paciência e sacrifício. E a arte lírica pressupõe o
aprimoramento dos dois dotes: cantor e ator. No meu caso pessoal, eu queria ser
primeiramente uma atriz, apesar da influência do meu tio Alberto Costa, médico
de profissão, mas músico instintivo que mais tarde compôs várias canções para
eu cantar. Na época, porém, por vários preconceitos, considerava-se uma desonra
para a família ter uma atriz entre seus integrantes. Ainda mais eu que não tinha
pai. Ele morreu quando fiz 4 anos de idade. E minha mãe e meu irmão, quinze
anos mais velho, nem discutiam o assunto. Em todo caso, aos 13 anos acompanhei
uma colega, Germana Mallet, a suas aulas de canto. Gostei do que vi e ouvi. E
resolvi fazer um teste. Eu não tinha voz alguma quando comecei. Os professores
me disseram que eu era muito nova ainda, que minha família ia gastar dinheiro à
toa. Mas eu insisti, chorei muito, garanti que não me importava com baile,
namorados, festas. E comecei a cantar. De fato, minha voz nunca foi
especialmente privilegiada. Mas consegui, primeiro com meus professores, depois
com o auxílio de meu segundo marido, o barítono Giuseppe Danise, trabalhar e
elaborar minha voz e ser capaz de cantar peças mais difíceis. Acredito que uma
atriz precise da mesma elaboração. no meu caso, felizmente, sempre fui uma
atriz instintiva. Nunca tive uma lição de cena. Mesmo assim, os maestros quase
nunca me corrigiram, porque eu sempre acertava.
Maria Helena Dutra - Você voltou ao Brasil para ser
presidente de honra do júri de um concurso de canto, no recentemente encerrado
Festival Villa-Lobos de 1973. Chegou a sentir nos jovens concorrentes a mesma
perseverança e talento que a levaram ao sucesso?
Bidu - A gente sente o cantor quase na primeira audição. Foi
o que aconteceu com a russa Nina Lebedeva, vencedora do Festival, solista de
várias óperas no Teatro Bolshoi. Aliás, ela continuou a tradição de artistas
socialistas vencerem concursos de canto no Brasil. Sem saber português, falando
apenas duas frases de francês, Lebedeva apresentou uma "Bachiana n.º
5" de Villa Lobos, de grande qualidade. Senti que ela tinha escutado minha
gravação. Eu me ouvia a mim mesma num estilo que só consegui alcançar ao ser
dirigida pelo próprio Villa. O segundo prêmio ficou com a brasileira Marlene
Guerra Ulhoa, sem tanto estilo e voz mas com qualidade. E o terceiro com a
chilena Mary Ann Fones, a melhor das semifinais, mas muito nervosa nas
"Bachianas" da finalíssima.
Maria Helena Dutra - Você conhece outra Bidu Sayão entro os
novos brasileiros? E a música brasileira ainda atrai suas atenções?
Bidu - Eu sempre tive esperança de que alguma jovem
brasileira viesse a tomar meu lugar. E, quando encontrei Maria Lúcia Godoy,
soube que não precisava procurar mais. Sou muito assediada por iniciantes,
principalmente brasileiros, e costumo agir impiedosamente porque acho um crime
alimentar pretensões. Sem possibilidades, não dou esperança. Exatamente o
contrário aconteceu com a Maria Lúcia - e eu fiquei de boca aberta quando a
ouvi cantar. Quanto à música brasileira, eu a considero mais espontânea, alegre
e variada da América Latina, tanto no campo erudito como no popular. No meu
tempo, além de Villa, é lógico, interpretei muitas canções de Francisco
Mignone, Ernâni Braga, Lorenzo Fernandes e Barroso Neto. Dos eruditos
contemporâneos pouco conheço. Mas existem dois compositores populares
brasileiros que, juro, se ainda cantasse, interpretaria com prazer: Antônio
Carlos Jobim e Dorival Caymmi.
Maria Helena Dutra - Você se confessa sem mágoas ou
ressentimentos do Brasil. Mas sofreu violenta vaia no Municipal em 1937. Logo
após Bidu Sayão se despediu dos palcos brasileiros e terminou sua carreira sem
sequer fazer um recital por aqui. Coincidência apenas?
Bidu - Apenas isso. As pessoas que fazem sucesso logicamente
têm inimizades. E a vaia no Municipal foi causada e dirigida por Gabriela
Besanzoni Lage, uma milionária que morreu na miséria na Itália. Tinha sido uma
cantora magnífica, a melhor "Carmen" que já vi. Mas, embora não mais
trabalhasse, morria de ciúme de todos os que apareciam. Quando fiz o
"Guarani", de Carlos Gomes, no Rio, ela organizou um pessoal para me
vaiar. O teatro inteiro, porém, começou a aplaudir e a vaia acabou. Gabriela, inclusive,
fugiu do camarote em que se encontrava. Isso, em todo caso, foi uma coisa
pequena, sem importância, que recordo sem raiva porque nunca tive inveja de
ninguém. Depois dessa vaia ainda cantei, no Brasil, "La Bohème",
"Romeu e Julieta", "Manon" e "Pelléas et
Melisande". E fui contratada pelo Metropolitan de Nova York. Os
compromissos me impediram de voltar. Só retornei ao Brasil em 1952, incógnita,
para acompanhar os últimos momentos de vida de meu irmão. Depois, nos Estados
Unidos, continuei minha carreira. Sempre pensei em voltar ao Brasil para me
retirar. Em 1953, no entanto, deixei o Metropolitan aproveitando o ensejo de
cantar novamente a "Manon". Sempre achei que dava sorte começar e
terminar uma etapa com a mesma música - e eu tinha estreado no Met com a
"Manon". Depois apenas dei concertos até 1958, quando me senti
cansadíssima apesar de continuar em boas condições vocais. E numa inspiração de
momento decidi acabar com minha carreira em três concertos no Carnegie Hall,
onde cantei a "Demoiselle Elue", de Claude Debussy, a primeira peça
que havia cantado nos Estados Unidos. Esta decisão foi causada, também, porque
minha mãe já estava muito doente e com 90 anos. E meu marido se queixava muito
de solidão, porque eu tinha uma vida de cigana. Considerei, então, que minha
família valia mais. Compramos uma casa no Maine e encerrei a vida profissional.
Por isso não pude fazer uma programação maior que incluísse o Brasil. Passei
então a fumar, a tomar coquetéis, o que a profissão antes me impedia - mas foi
muito duro parar. Eu vivia cheia de glórias, circundada de jornalistas. Na hora
de me retirar, contudo, de repente ficou tudo vazio. Foi duro, mas escolhi essa
solução.
Maria Helena Dutra - Um ano depois de tão súbita decisão
você voltou a cantar e chegou mesmo a gravar com Villa-Lobos "A Floresta
Amazônica". Saudades?
Bidu - Fiquei um ano sem cantar, sem abrir a boca, sem
vocalizar. Até que me amigo Villa e sua mulher, a Mindinha, chegaram aos
Estados Unidos. Villa tinha ido compor a trilha sonora do filme "Green
Mansions", com Audrey Hepburn. A fita foi um fiasco. E, da música do
Villa, sobraram só uns 10 minutos. Ele ficou indignado, eu nunca o vi tão
amolado. Decidiu, então, gravar a obra, e me pediu que o ajudasse. Eu estava há
um ano afastada. E só aceitei porque tive o pressentimento de que aquela seria
a última gravação do Villa. E foi.
Maria Helena Dutra - O fato de seu primeiro marido, Walter
Mocchi, ter sido empresário, segundo, Giuseppe Danise, ter sido um barítono de
fama, não foi fundamental para o sucesso de sua carreira?
Bidu - Para se fazer uma carreira internacional é preciso ter
perseverança, sorte e alguém que dê o impulso inicial, pois os empresários
nunca querem principiantes. O fato de meu primeiro marido ter sido empresário,
contudo, em nada contribuiu para o início da minha carreira internacional. Eu
estreei, em 1927, no Teatro Constanza, de Roma, após ter feito uma série de
audições para seus responsáveis. Consegui a chance porque tinha sido aluno de
Jean De Rezky, em Nice, França, a única sul-americana que ele aceitou ensinar.
Só dois anos depois, 1929, é que me casei com Walter, um sonhador, homem
riquíssimo, que botava tudo que tinha no teatro. Quanto aos Estados Unidos, foi
o maestro Arturo Toscanini, que conheci no Scala de Milão, quem me abriu as
portas do Metropolitan. Ele queria uma voz especial e etérea para interpretar a
"Demoiselle Elue" de Debussy. Tinha escutado todas as sopranos da
América sem encontrar o que pretendia. Eu nem sabia disso, até que tivemos uma
conversa sem compromissos. Aí, ele me levou para cantar o poema no
Metropolitan, num concerto do qual participara todas as pessoas importantes da
cidade. Afinal, apesar de desconhecida, e de nome exótico, eu era apresentada
por Toscanini. Mas ainda, tive a sorte de cantar no ano do afastamento da
soprano Lucrezia Bori, que tinha quase as mesmas características de voz. Assim
mesmo, porém, até ser contratada pelo Metropolitan, ainda fiz mais duas
audições. Seus responsáveis achavam que minha voz era pequena para o teatro e
eu tive de demonstrar que podia atingir até as últimas poltronas. Dois anos
depois, em 1939, separei-me de Walter e pouco tempo depois casei-me com Danise
que, durante quinze anos, foi barítono do Metropolitan e depois se tornou, até
morrer, em 1963, um grande professor. Através de estudo e muito exercício, ele
foi o responsável pelo desenvolvimento de minha voz.
Maria Helena Dutra - Mas por que mesmo depois de se retirar
você preferiu os Estados Unidos ao Brasil?
Bidu - Preferi não é bem o termo. Tanta coisa aconteceu
comigo, nesta visita, depois de informados dos meus azares, passaram apenas a
me dar figas como presente. Ao abandonar o canto, fiquei vivendo em Nova York,
junto a meu marido, que dava aulas. Passávamos o tempo livre em nossa ampla
casa no Maine, no norte do país, perto do Canadá. Em 1963, Danise morreu e
fiquei desorientada. Percebi que não tinha a menor experiência com relação a
nenhum problema prático. Não sabia fazer nada, só assinava cheques. Tive só
duas fraquezas: uma com peles e a outra com jóias. Pensando assim, vivíamos
nossos calmos e tranquilos dias quando ele morreu. O choque foi tanto que perdi
18 quilos em um mês. Mas sobrevivi por causa da minha mãe. Até que em 1966 ela
morreu aos 94 anos. Senti-me abandonada no mundo. Horrível. Tinha dinheiro mas
nenhuma felicidade. Passei a ter taquicardia, palpitações, suor frio e pulso
irregular. Mas meu cardiologista não constatou nenhum problema mais grave. Era
tudo angústia, nervosismo e preocupação. Fiquei com medo de vir ao Brasil e
morrer de uma emoção mais forte. Depois fui me habituando a viver sozinha. E
passei a dedicar carinho especial à minha casa, às minhas lembranças e
saudades. Mas, certo dia, em junho de 1969, saí para fazer umas compras, com o
meu empregado, misto de caseiro, jardineiro, chofer, tudo enfim, que me serve
há 22 anos. Estava apenas com um slack, sem jóias, sem nada. Na volta, vimos de
longe uma densa neblina. Mas quando cheguei perto não pude mais me enganar. O
fogo estava destruindo minha casa. Nada foi possível fazer. Perdi tudo. As
jóias que minha mãe tinha me dado, uma medalha feita pelo próprio Caruso com
uma caricatura sua, minhas tapeçarias, móveis, lembranças, diplomas, placas,
tudo. Provocado por um curto-circuito, o fogo acabou com as recordações de toda
minha vida. Só se salvou um anel de água-marinha brasileira. Mas reconstruí
tudo, a casa estava no seguro e o prejuízo financeiro não foi tão grande assim.
Maria Helena Dutra - — E então conseguiu um pouco de
tranquilidade?
Bidu - Minha filha, quando me dão figas é porque têm razão.
Ainda não acabou, não. A casa ficou pronta em 1970. Dois anos depois ladrões
estiveram lá e levaram tudo. Só não tocaram no que tinha as iniciais B.S. Mas
de resto fizeram um limpíssimo trabalho profissional. Como podia vir para o
Brasil e me divertir?
Maria Helena Dutra - Mesmo no seu retiro você ainda
acompanha a vida musical dos Estados Unidos? E a ópera, seria um gênero em
decadência?
Bidu - Hoje, a ópera não mais me diverte. Ainda existem
espetáculos bonitos. Mas o teatro lírico está realmente um pouco decadente e
fora de moda. Não por culpa do gênero que é eterno, mas pela insistência nos
erros. O principal na ópera é o canto. Mal cantada vira uma caricatura. Os
jovens de hoje, porém, mesmo alguns mais antigos, não têm paciência de estudar
muito ou a modéstia de se guardarem apenas para os papéis que sejam adequados à
sua voz e sensibilidade. Querem fazer tudo rápido e aparecer muito para ficarem
ricos e famosos depressa. Isto mata a ópera e seus melhores talentos.
Montserrat Caballé, minha cantora preferida, e Joan Sutherland são exceções
nestas comédias de erros. Duas vítimas do mal de que falei antes são Maria
Callas e Renata Tebaldi. Cantaram demais e em todos os gêneros de ópera:
dramática, lírica, ligeira. Dizem que o problema de Callas foi sua gordura e o
tratamento rigoroso a que se submeteu. Mas não é verdade. Foi a pressa. Aliás,
outra mentira histórica da ópera é se dizer que os gordos têm a melhor voz.
Bobagem. Mas insistem nesta mentira e o resultado são feias figuras no palco
numa hora em que os jovens estão habituados a outra estética. Se a ópera
insistir nessa tecla e nas montagens ultrapassadas vai realmente acabar.
Texto e imagens reproduzidos do site: elfikurten.com.br